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segunda-feira, 4 de junho de 2012

SERPENTINAS PÓ AR


Este ano o Pavilhão Temporário do Serpentine Gallery é um projecto dos Herzog & deMeuron. Depois de outras edições levadas a cabo por arquitectos como Sanna, Peter Zumthor, Jean Nouvel, Álvaro Siza e Souto Moura, foi a vez da dupla suíça exacerbar a componente conceptual e arquitectónica para uma reinterpretação daquele espaço implantado no Hyde Park (Londres).

Não irei fazer qualquer explicação sobre o projecto ou o seu conceito. O que retiro desta obra é mais do mesmo da conhecida filosofia dos Herzog & deMeuron: "fazer algo novo que nunca tenha sido experenciado antes". Parece-me que o projecto sobrevive de uma ideia que deseja sempre ser algo mais do que aquilo que é, uma pala contínua que desenha o pavilhão (Sanna) para mostrar o céu de Londres (Peter Zumthor) no espelho de água que desenha a lage horizontal. Algo está escondido ali debaixo! Fundações de construções passadas que não se chegam a mostrar mas que serviram de inspiração à liberdade orgânica do desenho do espaço revestido a cortiça ( alguém me disse que era portuguesa)...
Penso que é inevitável não fazer comparações entre este projecto e outros projectos passados. Afinal é a mesma "pista de corridas", são as mesmas condições e obstáculos. Nesse sentido não retiro nenhum interesse particular por este projecto. Parece-me arquitectónicamente pouco desafiante na potencialidade que aquele lugar pode oferecer e conceptualmente perdido em ideias abstractas que não são legíveis pelo observador na sua integridade, levando a que toda a intenção conceptual caia em "saco roto".

deixo-vos alguns links de interesse e um vídeo com uma entrevista ao arq. Herzog em género de visita ao pavilhão.

+info aqui e aqui, e aqui

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Mercado Bom Sucesso vai á rua



Hoje vem publicada a seguinte notícia no JN (online):
Siza Vieira diz que Bom Sucesso vai ser desvirtuado. 


Todavia a telenovela oficial havia começado no inicio deste ano. No dia 26 de Janeiro é anunciado a remodelação do mercado até ao final de 2013."É o princípio de uma nova era para o Mercado do Bom Sucesso", anunciou Manuel Sampaio Pimentel, pouco depois de assinar o contrato que dá à empresa Mercado Urbano (subsidiária da bracarense Eusébios & Filhos, SA) o direito de recuperar o mercado e explorá-lo nos próximos 50 anos (prorrogáveis por mais 20). O equipamento vai acolher um hotel "low -cost ou temático" com 83 quartos, área de serviços e comércio com 16 lojas exteriores e 23 interiores, um "mercado tradicional modernizado e de altíssima qualidade" com 44 bancas, e dois parques de estacionamento, um para uso do hotel e outro para os comerciantes e lojistas." -  Leva a querer que alguém andou a ler o Learning from Las Vegas do Venturi, mas não passou do título e da capa.


No mesmo dia (26 de Janeiro) é publicada em Diário da Republica a classificação do Mercado Bom sucesso como monumento de interesse público com direito a protecção especial :  "além do "valor arquitectónico" de um "exemplar notável da arquitectura modernista dos anos 50", a classificação tem em conta o "valor urbanístico e sócio-cultural, enquanto edifício de referência da paisagem urbana da cidade do Porto e na vivência da sua população, constituindo um espaço privilegiado de encontro de geração e classes sociais"". O interessante é tomar consciência que esta classificação sobre o imóvel naõ moveu a IGESPAR e deu mais espaço de manobra à autarquia para decidir sobre ele, pois em Abril começaram rapidamente as negociações entre os vendedores e a empresa Mercado Urbano : "Até à data tem corrido bem, porque as pessoas têm aceite as propostas que têm vindo a ser feitas - é o que me diz o vereador e é o que lhe diz a empresa que ganhou o concurso e que está obrigada a indemnizar as pessoas com base num plafond"" afirma Rui Rio.Note-se aqui que por a empresa ter assumido endemizar as pessoas, ficará 30 anos sem pagar pela concessão.



Um grupo de cidadãos não satisfeito desde o inicio com esta situação pouco transparente  formou o Mercado do Bom Sucesso Vivo (não confundir com Porto Vivo), uma espécie de associação que entende deter direitos cívicos e sociais para uma participação activa sobre este mercado. Não sei bem quem são estas pessoas, se representam os vendedores, se são consumidores habituais do mercado, no entanto  tem vindo a travar uma luta contra este processo. Elaboraram um petição onde pedem as assinaturas de quem entende que este equipamento colectivo é importante para a cidade e deve ser preservado. A luta tem sido bastante expositiva e assume hoje dia 19 Maio ás 17 horas uma acção de protesto em frente ao Mercado do Bom Sucesso.

Depois de os pritzker portugueses declarem que concordavam com esta petição e achavam este processo de requalificação desajustado, soube-se ontem que a Ordem dos Arquitectos SRN afinal também está preocupada com a situação.

Para finalizar o mercado do Bom Sucesso é uma obra do atelier ARS Arquitectos, de Fortunato Cabral, Morais Soares e Cunha Leão, projectada em 1949 e inaugurada em 1952. Um exemplo rico da arquitectura moderna em Portugal. Na minha opinião esta luta não é só pela arquitectura mas também pela condição urbanística da cidade.

Deixo-vos com uma imagem do mercado na sua condição actual e outra que simula o projecto de requalificação



vista panorâmica do Mercado do Bom Sucesso, foto de Carlos Romão



simulação do projecto de Eusébio e Filho S.A.

segunda-feira, 28 de março de 2011

My summer Love...

Foi no 2º ano do curso de arquitectura que me interessei pela obra do arquitecto Eduardo Souto Moura. Não sei bem porquê, mas nesse ano buscava insensatamente um pragmatismo qualquer no controlo do que era processo e programa de projecto – uma residência de estudantes + uma casa para um director + espaço multiusos + bares/cafetarias + parque de estacionamento; implantado à beira rio, no “bacalhau” ao lado da alfandega do Porto. A escala do sítio era um problema a ter em conta conjugado com a enorme extensão daquele terreno sem desprezar o o cenário ribeirinho que a norte se levantava. De forma mais ou menos contagiosa o Eduardo foi aparecendo. Volumes e intenções claras associavam os conteúdos, a simplicidade da estrutura que se mostra sem timidez e vai limitando os espaços, desenhando varandas em consola, abrindo grandes vãos na totalidade do que é interior…um muro de granito serve de apoio ás “caixas brancas” que se abrem descaradamente para o Douro.  Admirei o imediatismo do Eduardo. De forma inevitável, a ousadia das minhas perspectivas faziam-me acreditar que a arquitectura conseguia ser espontânea com rigor, e nisso o Eduardo mostrava como era fácil. Percebi o significado de bíblia, pois  lá estavam os pormenores que me faziam trocar os olhos e saber que aquele caixilho era de uma marca chamada vitrocsa.

Nesse mesmo ano, em forma de visita de estudo fomos ao sul de França para fazer o percurso Corbusier (La Tourette, Ronchamp, Firmini, Marseille, etc). Quando voltei, nunca mais quis ver o Eduardo.